Dias de abandono é o segundo romance de Elena Ferrante, um verdadeiro fenômeno da literatura internacional moderna. Nele, conta-se a história de Olga, uma mulher madura, casada há 15 anos, mãe de dois filhos e um cachorro, que abdicou da sua vida profissional para acompanhar as empreitadas profissionais do seu marido, Mário, e exercer a função de cuidadora da família e da casa. E, sem nenhum aviso prévio, um dia, Mário anuncia que vai embora de casa para viver com uma mulher mais jovem.
Espera aí. Então quer dizer que esse livro conta uma das histórias mais batidas, velhas e já contadas na humanidade, que nós mesmos vemos se desenrolar ao nosso lado no dia-a-dia? E, se sim, por que será que ele se tornou um fenômeno tão grande a ponto de virar filme?
Sem medo de ser clichê e repetitiva, este livro se diferencia por ser absolutamente visceral. Essa é uma palavra constantemente utilizada para descrever a obra e não é por coincidência. Como o próprio nome da obra diz, ela retrata os dias que se seguem após o que Olga considera um abandono, um espaço de tempo curto onde todas as emoções são vividas na maior intensidade possível. Como a história é narrada em primeira pessoa, do ponto de vista da Olga, nós entramos de cabeça junto com ela dentro do poço do sofrimento, até atingir o seu fundo (e cavar mais um pouquinho depois). É uma narrativa tão intensa, tão sofrida, que eu tive que parar de ler algumas vezes, tamanho o desconforto que ela causa. A sensação é de que estamos, de fato, assistindo um pay-per-view de uma pessoa elaborando o luto do seu relacionamento, dos seus sonhos e dos seus ideiais de felicidade, espiando momentos de intimidade que nos fazem questionar se deveríamos mesmo estar assistindo aquilo.
Olga simplesmente não consegue entender como as coisas chegaram naquela situação. Ela sempre fez tudo como deveria ter feito. Ela não era doida como a vizinha de sua infância, ela não era feia, ela não era velha, ela não era burra, ela não era uma pessoa ruim. Muito pelo contrário, ela sempre cumpriu todas as expectativas que a sociedade tinha sobre uma mulher. Então por que ela foi abandonada? O que justifica esse ato do seu marido?
Nos poucos dias narrados nesse livro, Olga conta tudo para nós. Todos os sentimentos que teve, todos os pensamentos autodestrutivos e perversos que passaram pela sua cabeça, todas as maluquices que teve vontade de fazer (e as que ela concretizou) e nós vamos criando empatia sobre uma pessoa em sofrimento e confusão profundos. E, no meio de uma infinidade de erros pequenos e gigantes, ela se reergue e se reencontra como indivíduo. deixando diversos alertas e reflexões para nós, mulheres. Vale por umas 5 sessões de terapia, facilmente.

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