A morte resolve tirar uma folga. Então um dia, sem mais nem menos, ninguém mais morre naquele país. E, o que a princípio gerou um sentimento de bênção, aos poucos foi trazendo consequências antes impensáveis para as dinâmicas e o tecido sociais.
Os primeiros a não se sentirem nada felizes com essa bênção foram os que tinham a morte como negócio: donos e funcionários de funerárias, coveiros, todos ficaram sem emprego e sem renda. Segundo, os morimbundos, que não se curaram magicamente, mas assim permaneceram ad eternum.
Os governantes que antes propagavam aos quatro ventos que eram um povo virtuoso escolhido para viver para sempre, tiveram que se desdobrar para pagar auxílios para os sem renda e para coibir atravessadores que levavam morimbundos para o outro lado da fronteira para poderem morrer em paz. Relações internacionais tornam-se complexas e a aposentadoria passa a ser vista, não só como um problema, mas como uma impossibilidade.
Já entediada da sua folga, a morte repentinamente volta ao seu ofício e, pouco tempo depois, decide avisar com antecedência de 5 dias o momento exato em que a pessoa iria morrer. As reflexões saem do âmbito coletivo e entram no âmbito individual. Então, Intermitências da Morte, a despeito do título, começa a nos fazer pensar de forma profunda sobre a vida, sobre o valor que damos às coisas e como esse valor está intrinsecamente ligado à nossa percepão de finitude.
Saramago não ganhou o prêmio nobel da literatura à toa. Apesar da premissa do livro parecer um devaneio da tarde de um domingo tedioso, paulatinamente acompanhamos ela se transformando em um ensaio social assistido. Eu fiquei obecada por este livro. Durante os poucos dias em que o lia, só conseguia falar sobre suas ponderações e suas reviravoltas. Queria expandir esse ensaio social e saber o que as pessoas ao meu redor também pensavam sobre aquilo, tentar levantar pontos que o autor porventura tivesse negligenciado, adaptar à nossa realidade brasileira. Foi uma experiêcia tão absolutamente imersiva e fantástica, que eu não vejo a hora de todos os outros livros do autor.






