domingo, 15 de março de 2026

As intermitências da morte - José Saramago

A morte resolve tirar uma folga. Então um dia, sem mais nem menos, ninguém mais morre naquele país. E, o que a princípio gerou um sentimento de bênção, aos poucos foi trazendo consequências antes impensáveis para as dinâmicas e o tecido sociais. 

Os primeiros a não se sentirem nada felizes com essa bênção foram os que tinham a morte como negócio: donos e funcionários de funerárias, coveiros, todos ficaram sem emprego e sem renda. Segundo, os morimbundos, que não se curaram magicamente, mas assim permaneceram ad eternum

Os governantes que antes propagavam aos quatro ventos que eram um povo virtuoso escolhido para viver para sempre, tiveram que se desdobrar para pagar auxílios para os sem renda e para coibir atravessadores que levavam morimbundos para o outro lado da fronteira para poderem morrer em paz. Relações internacionais tornam-se complexas e a aposentadoria passa a ser vista, não só como um problema, mas como uma impossibilidade.

Já entediada da sua folga, a morte repentinamente volta ao seu ofício e, pouco tempo depois, decide avisar com antecedência de 5 dias o momento exato em que a pessoa iria morrer. As reflexões saem do âmbito coletivo e entram no âmbito individual. Então, Intermitências da Morte, a despeito do título, começa a nos fazer pensar de forma profunda sobre a vida, sobre o valor que damos às coisas e como esse valor está intrinsecamente ligado à nossa percepão de finitude. 

Saramago não ganhou o prêmio nobel da literatura à toa. Apesar da premissa do livro parecer um devaneio da tarde de um domingo tedioso, paulatinamente acompanhamos ela se transformando em um ensaio social assistido. Eu fiquei obecada por este livro. Durante os poucos dias em que o lia, só conseguia falar sobre suas ponderações e suas reviravoltas. Queria expandir esse ensaio social e saber o que as pessoas ao meu redor também pensavam sobre aquilo, tentar levantar pontos que o autor porventura tivesse negligenciado, adaptar à nossa realidade brasileira. Foi uma experiêcia tão absolutamente imersiva e fantástica, que eu não vejo a hora de todos os outros livros do autor.

sábado, 14 de março de 2026

Operação Impensável - Vanessa Bárbara

O nome "operação impensável" foi dado a um plano de ataque surpresa à União Soviética elaborado por Winston Churchill durante a Guerra Fria, e escolhido pela autora para seu livro devido aos diversos paralelos que esta faz entre a Guerra Fria e a história do seu próprio casamento. Lia, a narradora em primeira pessoa, é uma historiadora, casada, que vive um relacionamento às vezes até meio infantil com seu  marido, e que conta sua história já sabendo o seu final (que não foi nada, nada amigável), enquanto conta também a história da operação que nomeou o livro. 

Apesar de ser intitulada uma história de ficção, hoje já é sabido que Lia é Vanessa, e que os acontecimentos ali narrados são fatos. Claro que, depois que sabemos o real caráter e as reais intenções das pessoas, é fácil identificar sinais de alerta que pareciam estar escondidos enquanto se vivia o relacionamento. Eu entendo a dinâmica de um relacionamento abusivo, pois também já passei por um e, inclusive, também já escrevi um livro sobre isso. Obviamente a autora não sabia, ou não tinha as ferramentas para identificar, que estava casada com o lixão podre radioativo que o marido dela escancarou ser no final. E eu sempre acho que nunca é demais nós contarmos nossas histórias, para que cada vez menos mulheres em situação de fragilidade e vulnerabilidade sejam presas nessa teia de manipulação mental e emocional.

Mas eu tive dois problemas com esse livro.

O primeiro é que, até a metade do livro, a história contemporânea do casal é contada numa estrutura pouco convencional, por vezes em tópicos, em mini-diários do relacionamento, detalhando conversas e brincadeirinhas internas tão bobas, que eu não consegui achar fofo, nem me identificar. Não que eu seja um poço de maturidade, mas, vamos combinar que piadas internas só tem graça para as pessoas envolvidas? Então, a primeira metade do livro é um pouco chata e vergonha alheia, simplesmente pelo fato de não fazermos parte daquela dinâmica, só estarmos assistindo alguns trechos isolados. 

O segundo problema é que eu não sou muito fã de história, então eu acho que não era bem o público alvo. Apesar de admirar o conhecimento e inteligência necessários para escrever os trechos históricos, eu achei essas partes do livro chatíssimas. Chatíssimas.

Apenas da metade do livro para o final que a história engrena: Lia começa a descobrir todas as picaretagens do marido e se rebelar contra ele e todo o sistema onde está inserida, que insiste em fingir que não entende a gravidade de tudo, se manter de fora ou, até mesmo, culpá-la pelo que ela passa, aí a leitura flui melhor. 

Véspera - Carla Madeira

"Véspera", o terceiro romance de Carla Madeira, começa chocando. Vedina parece estar tendo um dia que já começou insuportável. Tem uma reunião importante no trabalho, seu filho está fazendo pirraça e sendo paticularmente difícil e seu marido, Abel, não cumpre seu papel de pai e marido, deixando toda a sobrecarga para ela. A caminho do trabalho, num momento de raiva, frustração e cansaço extremo, Vedina para o carro no meio de uma avenida e larga o seu filho pirracento lá mesmo. Sai com o carro e, quase instantaneamente, se arrepende e volta ao local onde deixou o filho. Mas ele já não está mais lá. E, nesse momento de desespero, Vedina liga para Veneza.

A partir daí, no meio de alternâncias entre o passado e o presente, conhecemos a história de três núcleos familiares: Vedina e seu marido Abel, Veneza e seu marido Caim, Custódia, Antunes e seus dois filhos gêmeos.

A história de irmãos gêmeos não é uma novidade na literatura, aliás, desde o velho testamento nós nos deparamos com as semelhanças,  diferenças e desavenças entre irmãos e irmãs que compartilham o mesmo DNA. O desfecho da história bíblica de Caim e Abel não é novidade para ninguém: Caim mata Abel. Movida pela sua latejante religiosidade e em repúdio à brincadeira considerada de mau gosto por parte de seu marido Antunes, em nomeá-los dessa forma, Custódia decidiu criar os dois filhos exatamente da mesma forma, inclusive chamando-os ambos de Abel. 

As crianças permanecerem indistinguíveis até ingressarem na escola, onde, fatalmente, uma delas teria que assumir o nome de Caim. E, assim, assumindo nomes diferentes, assumiram também inúmeras outras diferenças. Até o momento que essa definição (a véspera da véspera da véspera...) culmina no fatídico abandono do início do livro.

Novamente, Carla Madeira aposta em personagens gritantemente comuns. Eu vi algumas pessoas comentando que não conseguiram se identificar com os personagens, que não têm profundidade o suficiente. Bom, para mim, o fato de os personagens serem extremamente comuns é uma das melhores características da autora. Eu posso não ter me identificado com um personagem em específico, mas definitivamente me identifiquei com as suas dúvidas, com as suas inseguranças, com a sua raiva, com as suas frustrações. 

O que eu achei mais interessante nessa história, e que, talvez, algumas pessoas não gostem, é o ponto de vista narrativo indireto. Carla narra a história dos gêmeos sempre através do olhar feminino (da mãe ou das esposas), nunca sob olhar dos próprios gêmeos, o que traz reflexões interessantes. Apesar de ambos os livros serem de uma escrita belíssima e uma leitura fluida, eu gostei bem mais de Véspera do que de Tudo é Rio, principalmente por conta do final, extremamente implacável e real.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Dias de abandono - Elena Ferrante

Dias de abandono é o segundo romance de Elena Ferrante, um verdadeiro fenômeno da literatura internacional moderna. Nele, conta-se a história de Olga, uma mulher madura, casada há 15 anos, mãe de dois filhos e um cachorro, que abdicou da sua vida profissional para acompanhar as empreitadas profissionais do seu marido, Mário, e exercer a função de cuidadora da família e da casa. E, sem nenhum aviso prévio, um dia, Mário anuncia que vai embora de casa para viver com uma mulher mais jovem.

Espera aí. Então quer dizer que esse livro conta uma das histórias mais batidas, velhas e já contadas na humanidade, que nós mesmos vemos se desenrolar ao nosso lado no dia-a-dia? E, se sim, por que será que ele se tornou um fenômeno tão grande a ponto de virar filme?

Sem medo de ser clichê e repetitiva, este livro se diferencia por ser absolutamente visceral. Essa é uma palavra constantemente utilizada para descrever a obra e não é por coincidência. Como o próprio nome da obra diz, ela retrata os dias que se seguem após o que Olga considera um abandono, um espaço de tempo curto onde todas as emoções são vividas na maior intensidade possível. Como a história é narrada em primeira pessoa, do ponto de vista da Olga, nós entramos de cabeça junto com ela dentro do poço do sofrimento, até atingir o seu fundo (e cavar mais um pouquinho depois). É uma narrativa tão intensa, tão sofrida, que eu tive que parar de ler algumas vezes, tamanho o desconforto que ela causa. A sensação é de que estamos, de fato, assistindo um pay-per-view de uma pessoa elaborando o luto do seu relacionamento, dos seus sonhos e dos seus ideiais de felicidade, espiando momentos de intimidade que nos fazem questionar se deveríamos mesmo estar assistindo aquilo. 

Olga simplesmente não consegue entender como as coisas chegaram naquela situação. Ela sempre fez tudo como deveria ter feito. Ela não era doida como a vizinha de sua infância, ela não era feia, ela não era velha, ela não era burra, ela não era uma pessoa ruim. Muito pelo contrário, ela sempre cumpriu todas as expectativas que a sociedade tinha sobre uma mulher. Então por que ela foi abandonada? O que justifica esse ato do seu marido?

Nos poucos dias narrados nesse livro, Olga conta tudo para nós. Todos os sentimentos que teve, todos os pensamentos autodestrutivos e perversos que passaram pela sua cabeça, todas as maluquices que teve vontade de fazer (e as que ela concretizou) e nós vamos criando empatia sobre uma pessoa em sofrimento e confusão profundos.  E, no meio de uma infinidade de erros pequenos e gigantes, ela se reergue e se reencontra como indivíduo, deixando diversos alertas e reflexões para nós, mulheres. Vale por umas 5 sessões de terapia, facilmente.

segunda-feira, 2 de março de 2026

A vida não é útil - Ailton Krenak

"A vida não é útil" é um livro bem pequenininho e, por isso, a resenha também será bem pequenininha. O autor, Ailton, é um jornalista indígena do povo Krenak, profundamente afetado pela industria da extração de minérios. Ao longo da sua vida, Ailton, que trabalhou (e ainda trabalha) principalmente com educação e ativismo ambiental, proferiu diversas palestras, deu entrevistas e participou de lives na pandemia, que tiveram seus conteúdos adaptados para o formato de texto. São eles: Não se come dinheiro, Sonhos para adiar o fim do mundo, A máquina de fazer coisas, O amanhã não está à venda e, aquele que dá nome ao livro, A vida não é útil.

Como os próprios nomes dos capítulos dizem, Ailton disserta sobre o estilo de vida e pensar capitalista e para onde eles estão nos levando. Em face da pandemia, o autor discorre como é, sim, possível diminuir o ritmo e respeitar mais os ciclos naturais das coisas e dos seres vivos. O livro é muito bonito e extremamente fácil de ler. Foi muito interessante ler as próprias palavras de um indígena sobre sua visão do que somos como seres humanos e, principalmente, do que é o planeta Terra. O povo Krenak considera a Terra um ser vivo. Tudo que nela existe é parte desse único ser pulsante. Tudo o que com ela é feito, acaba retornando. A Terra adoece e prospera como um todo. É curioso e um pouco triste, como essa visão era muito óbvia para mim quando criança e como ela foi se perdendo e se transformando ao longo da realidade nua e crua da vida.  

Apesar de bonito, o meu lado cínico achou a obra talvez um pouco positiva demais. Cheguei na leitura esperando algo mais na linha da Sociedade do cansaço, do Byung-Chul Han, e não estava preparada para o tanto de positivismo que encontrei. Minha alma amarga e derrotista queria validação e o Ailton não validou, não. O que foi ótimo. Contudo, apesar de positivo, Ailton não cai naquela falácia de que está nas nossas mãos individuais mudar isso e responsabiliza quem deve ser responsabilizado por fazer as mudanças que são necessárias para que, de fato ocorra uma transformação geral na sociedade. É um suspiro poder encontrar pessoas e povos que pensam diferente de mim, que me forçam a ver o mundo de uma maneira mais positiva. Aliás, se não houver esperança, não há luta.  

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O jeito Harvard de ser feliz - Shawn Achor

"O jeito Harvard de ser feliz" compila os ensinamentos passados no "curso mais concorrido da melhor universidade do mundo" sobre Felicidade e Psicologia Positiva, ministrado pelo o autor e professor, Shawn Achor. 

Durante o texto, Shawn apresenta alguma ferramentas para treinar sua mente a ver o lado positivo das coisas e, assim, ser mais feliz e bem sucedido. Tanto o curso, quanto o livro, são baseados em um dos maiores estudos já feitos sobre felicidade. As principais conclusões deste estudo são resumidas na forma de alguns "mandamentos" para uma vida mais feliz, como por exemplo, exercitar o corpo físico, ser grato, ser bondoso, etc.

Apesar de autoajuda não ser o meu gênero preferido de leitura, eu sempre acho que é possível extrair coisas positivas sobre a leitura. Pessoalmente, por já ter passado por algumas fases depressivas, acabei indo buscar mais informações sobre a felicidade e como não deixá-la escapar entre os dedos. Já tinha feito, inclusive, um curso de formação na universidade onde eu trabalhava que fora muito embasado nesse livro e nos ensinamentos da psicologia positiva. Logo, esse livro em específico não me trouxe muita coisa nova por eu já ter estudado sobre o tema. À época deste curso, eu tivera questionamentos a respeito da psicologia positiva e quando que ela se tornava positividade tóxica. Confesso que atpe hoje não sei onde está a linha que os separa. O livro também não se esforça para fazer essa distinção de maneira muito clara, ficando a cargo do leitor calibrar essa balança.

Algo que eu também acho que não fica claro no livro são as ocasiões em que o melhor a se fazer é procurar ajuda psicológica e médica, pois positividade nenhuma cura uma doença. Claro, é uma ferramenta, mas não é o suficiente. 

Outra crítica é o fato de a felicidade ser sempre referida como uma condição mínima para ser produtivo e bem sucedido, o que me deixou um gosto amargo na boca. Não basta ser feliz, pois se é um humano e seres humanos merecem ser felizes? Na minha opinião, o contexto produtivista, mercadológico que o autor está inserido (aliás, é estadunidense) acabou o impedindo de escrever uma obra mais bonita e voltada a todos, não apenas à população em idade ou condições produtivas. Se você for ler esta obra, eu recomendo que você também leia "A vida não é útil - Ailton Krenak", que te dará excelentes adições e necessários contrapontos ao que é debatido neste livro. 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Tudo é rio - Carla Madeira

Tudo é Rio é o romance de estreia da escritora mineira Carla Madeira, e não foi à toa que a deixou em evidência no cenário literário do Brasil. Contudo, para mim, ele deixou um retrogosto amargo na boca. Vou tentar não dar grandes spoilers na minha explicação, mas você pode acabar sacando alguma coisa durante a leitura, então não leia esta resenha se você estiver no meio do livro, ou esteja preparado. Vamos por partes... 

O livro trata da história de Dalva e Venâncio, atravessada pela existência de Lucy. Os personagens desta trama são pessoas muito comuns, como eu, você, o marido da nossa prima, a filha daquele vizinho. São pessoas palpáveis, que pensam e agem como pessoas totalmente imperfeitas, o que torna a identificação quase obrigatória. Dalva e Venâncio se conhecem e se casam bem jovens e apaixonados. Contudo, Venâncio sempre foi um homem muito ciumento e possessivo. Seus ataques de ciúmes escalonam aos poucos na trama, até o derradeiro momento em que ele faz algo impensável, que à primeira vista parece um grande exagero, uma grande extrapolação da realidade, mas está, sim, presente na realidade. E a partir daí, todo mundo tem que lidar com as consequências deste ato. 

A escrita de Carla Madeira é linda, uma prosa poética. É possível perceber, linha a linha, o quanto a autora se esforçou para escrever naquela narrativa tão simplesmente bela, não sendo, de forma alguma, uma escrita prepotente. As frases são delicadas, cuidadosas e que te trasportam para dentro das cenas narradas de uma maneira natural. Carla Madeira é uma baita escritora, para a qual eu tiro o chapéu. E gostei tanto da sua escrita que comprei e li o seu terceiro livro (Véspera).

Mas, espera aí: como assim eu li, achei o livro lindo, a escrita maravilhosa, mas exatamente gostei? O problema para mim, caros leitores, foi o final do livro. Senti uma romantização que ali não cabia. Me senti extremamente desconfortável com o rumo que as coisas tomaram. "Ah, mas a literatura serve para isso mesmo, para nos tirar do nosso conforto". Eu sei, oras bolas. Mas existe o desconforto por nos esfregar na cara a crua humanidade das pessoas e existe o desconforto por descrever lindamente uma reconstrução de algo essencialmente podre. 

Claro, você e qualquer pessoa podem discordar com respeito de absolutamente tudo o que eu achei sobre o livro e até me apontar algumas nuances que eu, de repente, deixei escapar, não interpretei direito (debatível) e tudo o mais. Sinta-se livre nestes comentários. Mas não me venha dizer que aquele final não deixa dúvidas esquisitas sobre o caráter de um dos personagens. Passamos o livro inteiro achando que era quase uma divindade, mas, ao final, descobrimos tudo que fez por debaixo dos panos, numa longa e bem articulada punição. Que coisa mais doida.