"Véspera", o terceiro romance de Carla Madeira, começa chocando. Vedina parece estar tendo um dia que já começou insuportável. Tem uma reunião importante no trabalho, seu filho está fazendo pirraça e sendo paticularmente difícil e seu marido, Abel, não cumpre seu papel de pai e marido, deixando toda a sobrecarga para ela. A caminho do trabalho, num momento de raiva, frustração e cansaço extremo, Vedina para o carro no meio de uma avenida e larga o seu filho pirracento lá mesmo. Sai com o carro e, quase instantaneamente, se arrepende e volta ao local onde deixou o filho. Mas ele já não está mais lá. E, nesse momento de desespero, Vedina liga para Veneza.
A partir daí, no meio de alternâncias entre o passado e o presente, conhecemos a história de três núcleos familiares: Vedina e seu marido Abel, Veneza e seu marido Caim, Custódia, Antunes e seus dois filhos gêmeos.
A história de irmãos gêmeos não é uma novidade na literatura, aliás, a desde o velho testamento nós nos deparamos com as semelhanças, diferenças e desavenças entre irmãos e irmãs que compartilham o mesmo DNA. O desfecho da história bíblica de Caim e Abel não é novidade para ninguém: Caim mata Abel. Movida pela sua latejante religiosidade e em repúdio à brincadeira considerada de mau gosto por parte de seu marido Antunes, em nomeá-los dessa forma, Custódia decidiu criar os dois filhos exatamente da mesma forma, inclusive chamando-os ambos de Abel.
As crianças permanecerem indistinguíveis até ingressarem na escola, onde, fatalmente, uma delas teria que assumir o nome de Caim. E, assim, assumindo nomes diferentes, assumiram também inúmeras outras diferenças. Até o momento que essa definição (a véspera da véspera da véspera...) culmina no fatídico abandono do início do livro.
Novamente, Carla Madeira aposta em personagens gritantemente comuns. Eu vi algumas pessoas comentando que não conseguiram se identificar com os personagens, que não têm profundidade o suficiente. Bom, para mim, o fato de os personagens serem extremamente comuns é uma das melhores características da autora. Eu posso não ter me identificado com um personagem em específico, mas definitivamente me identifiquei com as suas dúvidas, com as suas inseguranças, com a sua raiva, com as suas frustrações.
O que eu achei mais interessante nessa história, e que, talvez, algumas pessoas não gostem, é o ponto de vista narrativo indireto. Carla narra a história dos gêmeos sempre através do olhar feminino (da mãe ou das esposas), nunca sob olhar dos próprios gêmeos, o que traz reflexões interessantes. Apesar de ambos os livros serem de uma escrita belíssima e uma leitura fluida, eu gostei bem mais de Véspera do que de Tudo é Rio, principalmente por conta do final, extremamente implacável e real.

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