domingo, 22 de fevereiro de 2026

Tudo é rio - Carla Madeira

Tudo é Rio é o romance de estreia da escritora mineira Carla Madeira, e não foi à toa que a deixou em evidência no cenário literário do Brasil. Contudo, para mim, ele deixou um retrogosto amargo na boca. Vou tentar não dar grandes spoilers na minha explicação, mas você pode acabar sacando alguma coisa durante a leitura, então não leia esta resenha se você estiver no meio do livro, ou esteja preparado. Vamos por partes... 

O livro trata da história de Dalva e Venâncio, atravessada pela existência de Lucy. Os personagens desta trama são pessoas muito comuns, como eu, você, o marido da nossa prima, a filha daquele vizinho. São pessoas palpáveis, que pensam e agem como pessoas totalmente imperfeitas, o que torna a identificação quase obrigatória. Dalva e Venâncio se conhecem e se casam bem jovens e apaixonados. Contudo, Venâncio sempre foi um homem muito ciumento e possessivo. Seus ataques de ciúmes escalonam aos poucos na trama, até o derradeiro momento em que ele faz algo impensável, que à primeira vista parece um grande exagero, uma grande extrapolação da realidade, mas está, sim, presente na realidade. E a partir daí, todo mundo tem que lidar com as consequências deste ato. 

A escrita de Carla Madeira é linda, uma prosa poética. É possível perceber, linha a linha, o quanto a autora se esforçou para escrever naquela narrativa tão simplesmente bela, não sendo, de forma alguma, uma escrita prepotente. As frases são delicadas, cuidadosas e que te trasportam para dentro das cenas narradas de uma maneira natural. Carla Madeira é uma baita escritora, para a qual eu tiro o chapéu. E gostei tanto da sua escrita que comprei e li o seu terceiro livro (Véspera).

Mas, espera aí: como assim eu li, achei o livro lindo, a escrita maravilhosa, mas exatamente gostei? O problema para mim, caros leitores, foi o final do livro. Senti uma romantização que ali não cabia. Me senti extremamente desconfortável com o rumo que as coisas tomaram. "Ah, mas a literatura serve para isso mesmo, para nos tirar do nosso conforto". Eu sei, oras bolas. Mas existe o desconforto por nos esfregar na cara a crua humanidade das pessoas e existe o desconforto por descrever lindamente uma reconstrução de algo essencialmente podre. 

Claro, você e qualquer pessoa podem discordar com respeito de absolutamente tudo o que eu achei sobre o livro e até me apontar algumas nuances que eu, de repente, deixei escapar, não interpretei direito (debatível) e tudo o mais. Sinta-se livre nestes comentários. Mas não me venha dizer que aquele final não deixa dúvidas esquisitas sobre o caráter de um dos personagens. Passamos o livro inteiro achando que era quase uma divindade, mas, ao final, descobrimos tudo que fez por debaixo dos panos, numa longa e bem articulada punição. Que coisa mais doida.

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