domingo, 22 de março de 2026

Anne de Green Gables - L. M. Montgomery

Um dia, Matthew pega seu cavalo, atrela à sua carroça e vai até a estação de trem receber um menino que foi enviado para adoção à família Cuthbert, composta apenas pelo próprio Matthew e sua irmã Marilla. Como ambos eram solteirões, não tinham filhos e estavam ficando velhos, o trabalho braçal na fazenda Green Gables ficava cada dia mais pesado e era necessário ter uma força de trabalho jovem e resistente para levar o legado da família adiante. Essa prática da adoção para trabalho no lar (meninas) ou na fazenda (meninos) era muito comum antigamente, então vamos fingir que isso não é problemático para não cair no anacronismo, mesmo ainda hoje sendo uma prática persistente nos confins do Brasil.

Ao chegar na estação, Matthew se depara com um engano: uma menina ruiva e franzina fora lhe enviada no lugar do menino que esperava. Como Matthew era um cara que não sabia agir sob pressão, não sabia dizer não e sempre deixava o coração entrar na frente da razão (alguns o definiriam como bobão), resolveu levá-la para casa mesmo assim e se encantou com a menina logo no trajeto até a fazenda. Sua irmã Marilla, que desempenha o papel racional da família, foi terminantemente contra a adoção e não se preocupava em esconder esse descontentamento da própria Anne, que tomou como objetivo de vida conquistar o seu coração. 

Ao longo das páginas, vemos como Anne, uma menina esquisitinha, descrita por ela mesma como feia por conta dos cabelos ruivos que ela detesta, e de passado sofrido, finalmente tem a chance de ser uma criança, que estuda, erra e acerta. Sempre muito imaginativa, Anne criava dentro da sua cabeça histórias e personagens complexos, sendo ela mesma uma dessas personagens (a Princesa Cornelia) então, além de transportar todos para dentro do seu mundinho imaginativo (principalmente sua melhor amiga, Diana), transformava sua própria realidade num grande drama.

Eu li o livro após assistir todas as temporadas da série da Netflix. Fui esperando um grande e profundo drama, com várias pitadas de comédia, mas a minha impressão é de que a narrativa do livro é apressada demais para isso. Na série, vemos como Anne muito vagarosamente conquista o amor dos Cuthberts, aos trancos e barrancos, sempre no meio de muitos erros, choros e ameaças de fim do mundo. Aos poucos, Anne é não apenas aceita, mas se torna parte integrante e essencial da comunidade fechada e antiquada do vilarejo de Avonlea, transformando-a profundamente com sua imaginação e seu otimismo desenfreados. A série é linda e eu chorei, se não em todos, em quase todos os episódios, mas no livro parecia que a autora queria finalizar logo aquela trama. Tanto que o primeiro livro termina com a Anne finalizando o ensino na escola e sendo aceita na faculdade, algo que acontece  apenas na terceira temporada da série. 

Lendo um pouco a respeito da autora, parece que ela foi pega de surpresa pelo sucesso do primeiro livro e teve que inventar maneiras de continuar com a saga de Anne nos livros posteriores, amadurecendo a personagem e escrevendo outros livros no meio das histórias que já tinham sido contadas anteriormente. Saber disso, associada à experiência um pouco brochante do primeiro livro, não me deu vontade de ler os subsequentes, mas fiquei morrendo de vontade de reasssitir a série.

Nenhum comentário:

Postar um comentário