domingo, 22 de março de 2026

Sobre os ossos dos mortos - Olga Tokarczuk

Em "Sobre os ossos dos mortos", a protagonista Janina nos narra em primeira pessoa uma parte da história do pequeno vilarejo onde mora. Nesta pequena vila, localizada nas bordas da Polônia, durante um rigoroso inverno, vizinhos e conhecidos começam a morrer em situações inusitadas e suspeitas.

Janina é uma engenheira civil aposentada, que se mudou para este pequeno vilarejo para viver uma vida pacata. Deu aula no colégio para as crianças durante um tempo, mas ocupa a maior parte do seu tempo traduzindo poemas de William Blake com um ex-aluno, estudando astrologia por conta própria e cuidando da casa dos vizinhos, quando estes se ausentam. Além disso, é uma pessoa já meio ranzinza e pessimista, que vê o lado ruim em tudo e todos, coloca apelidos pejorativos em todos que a rodeiam (mas nunca os profere em voz alta), uma ferrenha ambientalista, vegetariana e contra as políticas de caça do seu país, as quais considera brandas demais. 

Num certo dia de inverno, um de seus vizinhos morre engasgado com um osso da corça que havia caçado. Pouco depois outros caçadores morrem, e parece que pistas deixadas por animais nos locais dos crimes estão sendo negligenciadas pelas forças policiais. Janina, já absolutamente convencida e respaldada por seus estudos astrológicos, começa a tentar convencer todos ao seu redor (inclusive a polícia), de que a natureza selvagem finalmente começara a se vingar dos seus algozes.

Ok, a partir daqui, não há mais o que falar da trama sem revelar um pouco do seu final, então, já leia sabendo do risco de receber um spoiler.

Este não é um livro novo: foi publicado a primeira vez em 2009 e trazido para o Brasil em 2019. Também não foi o motivo principal de Olga ter ganhado um prêmio Nobel, dado pelo conjunto de toda sua obra literária. E mesmo assim, ele fez barulho quando chegou aqui no Brasil. Tanto barulho que eu voluntariamente comprei a versão física para ler, algo que faço com raridade, já que ganhei muitos livros da coleção dos meus pais quando se mudaram e priorizo lê-los. A edição do livro é linda. Eu, que não sou uma pessoa apegada ao livro físico e doo a maior parte daqueles que já li, fiquei com vontade de mantê-lo na minha coleção. Só não o fiz, porque esse livro é muito chato. Nossa, como é chato. 

A narrativa até que é boa, mas a protagonista é difícil de engolir. Existe uma sutileza dentro da protagonista e das suas relações, onde podemos aprender uma coisa ou outra a respeito de etarismo e da solidão dos idosos. A Janina é uma idosa muito sozinha, mas que conscientemente escolheu ficar só e morar num lugar onde nem os Poloneses conseguem permanecer no inverno, de tão frio e triste. Será que é o que ela acha que merece? Além disso, ela nitidamente é vista como a vizinha encrenqueira, que reclama de tudo e se rebela contra um sistema que não a ouve, e por isso é tachada de chata e louca. E talvez esse amargor da Janina é tão bem descrito que ela se tornou uma personagem insuportável de se conviver ali na vila, mas também se tornou uma narradora chata de ler.

Adicionando a isso, a questão ambiental do livro parece que foi colocada sem cuidado, enfiada goela a baixo e ficou parecendo uma palestrinha de vegano para vegano; não convence ninguém de fora do movimento e só serve para reforçar o que as pessoas já pensam. Por último, o enredo policial não é envolvente e o final não surpreende nem os leitores mais desatentos. Não gostei mesmo.

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