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quarta-feira, 3 de julho de 2024

A tetralogia napolitana de Elena Ferrante

Já algum tempo eu estava buscando alguma leitura para me prender, daqueles livros que dão vontade de chegar em casa logo para poder voltar a ler, de esquecer que tem que ir dormir cedo para trabalhar no dia seguinte, de torcer para sábado e domingo chegarem para passar o dia todo lendo. E essa tetralogia me entregou justamente isso. De Fevereiro até Junho, só o que eu fiz foi ler Elena Ferrante. Fiquei tão fissurada, que fui correndo assistir a série da HBO assim que terminei a leitura, para continuar com o gostinho da trama na boca.

A tetralogia napolitana de Ferrante já é considerada um clássico da literatura contemporânea por alguns entendidos da área e hoje eu entendo porquê. Nesses quatro livros, acompanhamos o nascimento, desenvolvimento e morte da amizade de duas personagens: Elena (Lenu - a narradora da história) e Rafaela (Lina/Lila), que parecem tão distintas em personalidade, mas que, vez ou outra, se pegam vivendo os mesmos impasses e as mesmas contradições.

(Pode conter spoilers)

Em A Amiga Genial, Ferrante estabelece as raízes dessa amizade, constrói o cenário e as personalidades das duas garotinhas, que logo vemos se transformando em duas adolescentes. "Eu sou a má, você é a boa", disse Lila, já fazendo essa primeira distinção. Morando no mesmo bairro, em prédios vizinhos, e frequentando a mesma escola, Lenu e Lila pareciam ter destinos similares: ambas inteligentes, sagazes e destemidas. Logo estabelece-se uma relação de quase simbiose e competição entre as duas. Contudo, no final da quarta série, as duas amigas são obrigadas a se separar, pois, enquanto Lenu continua seus estudos no Fundamental II, Lila é impedida de estudar por sua família, que precisa de ajuda no comércio. Neste momento ocorre uma cisão irreparável entre as duas. Lenu iria viver tudo aquilo que Lila tinha planejado para a sua própria vida, mas não teve oportunidade de seguir. Separam-se em "o que Lenu foi e Lila poderia ter sido" e "o que Lila foi e Lenu pode se tornar se não prestar atenção aos seus passos", quase como se uma mesma pessoa visse a separação de sua linha do tempo em dois multiversos onde tomou decisões (ou decisões foram tomadas por outros sobre si) que mudaram para sempre sua vida. 

Em História do Novo Sobrenome, o livro se desenrola em volta das relações amorosas e conjugais de Lenu e Lila. Enquanto Elena tenta conciliar essas relações com seus estudos, Lila tenta conciliá-las com as expectativas de sua família e de todo o bairro. Este segundo livro foi o mais babadeiro, cheio de acontecimentos movidos pela juventude dos personagens, afoitos em viver, perseguir seus sonhos e errar o tempo todo. Justamente por isso, essa unidade carrega uma tensão difícil de explicar. Aquela da classe trabalhadora, das pessoas que vieram do nada, de que qualquer passo dado em falso poderia significar a completa perdição das personagens. Elas não tem direito a uma segunda chance. 

Aqui, você começa a conhecer tão bem as personagens, seus medos e sonhos, que, durante todos os outros livros, por mais inesperado que seja um acontecimento, uma tomada de decisão, você percebe o embasamento daquela escolha. A forma de agir de Lenu e Lila nunca é aleatória. Ao final, você já está soltando mentalmente frases como "típico da Lila agir assim". 

Em História de quem foge e de quem fica, percebemos um crescendo na tensão política do momento, com ascensão do fascismo na Itália e perseguição aos comunistas. Também observamos o início de movimentos e discussões feministas até hoje contemporâneas, sobre a infiltração de todas as filosofias acadêmicas de igualdade nas classes operárias, menos estudadas, extremamente exploradas e subjugadas por outras classes diariamente, ou até mesmo subjugada entre seus próprios membros. 

Essas reflexões político-ideológicas permeiam todos os campos da vida de Lenu, agora uma escritora conhecida que não mora mais no bairro de origem, que precisa descobrir como se posicionar, como ajudar, como contar a história do seu bairro sem ser perseguida, sem perder leitores, conciliando o papel de feminista com o papel de esposa, mãe e "menina do bairro que deu certo". 

Para mim, foi o livro mais bonito, o que mais me tocou, pois a personagem passou pela idade que tenho hoje. Em muitas páginas, me peguei fazendo as mesmas indagações de Lenu, me indignando com as mesmas coisas, refletindo sobre qual aspecto me resignar ou não, sobre o que se pode mudar do nosso cotidiano e o que não se pode mudar, me olhando no espelho buscando entender quem ou o que eu tinha me tornado.

Por fim, em A menina perdida,  Lenu volta ao bairro de origem e volta a dividir o cotidiano e jornadas de vida com Lila. A reaproximação das duas é algo positivo ou negativo? Precisa ser apenas uma dessas coisas? Já mais amadurecidas, as nossas protagonistas simplesmente resolvem serem quem são, despir as máscaras, viver as suas verdades e seus sonhos de acordo com a possibilidade de suas realidades. De fundo, sempre há o questionamento se existe mais para se viver além do bairro e, se existe, para que viver essas coisas? Será que vale a pena? É um livro que deveria trazer respostas, mas não traz. Só traz mais perguntas, mais indagações, assim como é a vida. Sem resoluções mesmo.

Duas coisas que eu me apaixonei nessa tetralogia foram: (1) Durante a narrativa dos quatro livros, conseguimos distinguir claramente o ponto de vista enviesado de quem conta a história. Tendo conhecimento da história dos personagens, você se torna tão íntima de suas personalidades que já consegue separar o que é fato do que é opinião. (2) Você nunca sabe a quem se refere o título dos livros. Seria Lila ou Lenu a Amiga Genial? Ou seriam ambas? A história do novo sobrenome, será o de Lila ou de Lenu? Quem fugiu e quem ficou? E quem voltou? Quem é a menina perdida? Esse título é literal ou subjetivo? O mais curioso é que, mesmo depois de ler os quatro livros, ainda não há uma certeza. Pois os títulos dos livros não são sobre uma ou outra, são sobre as duas, em momentos distintos, ao mesmo tempo, mas sempre as duas, vivendo vidas diferentes, mas que se cruzam em tantos pontos.

Eu vi gente no Twitter falando que o livro é chato, pois nada acontece. Fiquei indignada, pois para mim é justamente o contrário: uma vida inteira acontece. Na verdade, duas vidas inteiras. E nós temos o privilégio de acompanhar a evolução dessas duas mulheres passo a passo, suas decisões, seus arrependimentos, seus sentimentos contraditórios. É de uma beleza e reflexão incríveis. 

terça-feira, 2 de julho de 2024

O livro dos Baltimore - Joël Dicker

"O livros dos Baltimore" de Joël Dicker conta a história dos dois ramos da família Goldman: os de Montclair e os de Baltimore. Marcus é um  Goldman de Montclair, que cresceu com o sentimento de inadequação e insuficiência, comparando o tempo todo seu estilo de vida, seus pais e sua casa com aqueles dos seus primos e tios de Baltimore, extremamente bem sucedidos.

A história começa com Marcus indo visitar um dos seus primos pela última vez, antes que o primo fosse preso. O motivo não é revelado. Ao invés disso, o autor volta vinte anos na história para contextualizar essa prisão. O autor alterna entre acontecimentos do passado e o presente, sempre indo e voltando. Eu devo estar muito amarga hoje, mas esse é um recurso narrativo já bastante usado e, no caso desse livro, por ele voltar em vários pontos do passados distintos, se tornou também um pouco cansativo. 

Nessas voltas, o autor constrói a personalidade de todos os 5 personagens mais proeminentes da trama: Marcus, seus dois primos e tios. Contudo, achei essa construção bastante superficial, onde cada personagem desempenhava apenas um papel (menino brigão, menino estudioso, mulher acolhedora, etc), algo bastante raso e que dificultou que eu me apegasse, ou até mesmo gostasse, de qualquer personagem. Pouco depois, a gente descobre que aquela primeira cena da visita ao primo também é no passado, antes de acontecer O DRAMA. E o que é "o drama"? Também não sabemos, mas sabemos que esse acontecimento mudou os rumos de todos os envolvidos. 

O vocabulário utilizado não é muito rebuscado e não há espaço na leitura para grandes reflexões (tudo é jogado na lata), então a leitura é bastante fácil e fluida. Numa longa viagem de Minas Gerais para o Rio Grande do Sul, li mais de 70% do livro. Então, você vai sendo levado pela leitura, coletando pequenas pistas aqui e ali do que pode ter sido o drama, quem estaria envolvido, tudo o mais. Como o tempo da narrativa muda muito, está sempre acontecendo alguma coisa, em algum dos núcleos de personagem, em algum tempo. Mas a sensação é de que nada se conecta e nada se desenvolve muito profundamente. Não há um crescendo, parece mais um amontoado de fatos.

Lá por volta de 85% do livro, finalmente acontece o tal do drama e, quando ele acontece, você é pego totalmente de surpresa. Não porque é um roteiro muito bem escrito, mas porque é totalmente aleatório. Você não consegue imaginar o drama, pois as parcas informações sobre a personalidade dos personagens não corroboram com os fatos do tal drama. Pareceu totalmente sem sentido, tirado do c* só para chocar. Aí eu terminei o livro na força do ódio, porque eu já tinha lido pra mais de 350 páginas.

Bom, eu não conhecia o autor, fui ler totalmente às cegas. Baixei o livro pois vi  muita gente propagandeando o autor no Twitter e o livro estava de graça. Depois fui procurar saber quem era e vi que até ganhou prêmios literários importantes. Sinceramente, eu achei o livro ruim. Ele te prende a atenção, mas um acidente de carro também prende sua atenção e não é algo bom de ver. Para um ganhador de prêmio, eu esperava algo um pouco mais trabalhado. 

domingo, 30 de junho de 2024

Amor, dever e destino - Tawany Carvalho

No seu livro de estreia, Tawany mostra a sua capacidade inventiva e seu potencial como escritora. Com uma narrativa jovem, a autora submete seus personagens apaixonados e cheios de sonhos a diversos reveses da vida. É um livro onde acontece bastante coisa, mesmo, de desilusão amorosa até terceira guerra mundial, com diversas reviravoltas e mudanças de cenário. Às vezes, as mudanças foram tão rápidas que foi um pouco difícil de acompanhar.

Sei que ela tem outros livros publicados, mas não os li. Não sei o quanto sua escrita amadureceu de lá para cá. Tendo como base apenas essa obra, creio que a autora possa reduzir um pouco a quantidade de dramas e focar em se aprofundar nas emoções que cada acontecimento individual desperta nos seus personagens. Senti que alguns acontecimentos importantes foram retratados muito por cima, como se não fossem grande coisa na vida daquelas pessoas, sendo que eram acontecimentos gigantescos. 

Enfim, uma boa obra de estreia, bem escrito e revisado. Contudo, acho que, definitivamente, não sou o público-alvo. 

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Eu queria que você soubesse - Bruna Fontes

Mariana (Nana) e Pam são adolescentes no último ano do Ensino Médio que se amam, se divertem, mas, às vezes, trocam algumas farpas. No meio da pressão para realizar o ENEM, Nana e Pam são carregadas nessa enxurrada de confusões que é a vida adolescente, sem saberem direito quem são, o que as define, o que esperam delas e o que elas realmente querem ser ou fazer.  

O livro é bastante jovem, diria que dos 14 aos 18 anos, e aborda temas importantes para a faixa etária, como a definição da faculdade, sexualidade, gordofobia, relacionamentos com amigos, ficantes e namorados. Uma história bem escrita e muito delicada, que, apesar de não ser focada em mim como público-alvo, conseguiu me prender até o final.

Dois Irmãos - Fábio Moon e Gabriel Bá

A história dos Dois Irmãos gêmeos de personalidades muito distintas, Omar e Yaqub, se passa numa Manaus de antigamente, onde seus pais, imigrantes libaneses, construíram comércio e reputação. Os irmãos foram o melhor presente que sua mãe Zana ganhara na vida. O patriarca Halim, por outro lado, achara a vontade de sua esposa ter filhos uma má ideia e o casamento nunca se recuperou do nascimento dos gêmeos; nem mesmo a vinda da filha caçula Rânia a tirou da paixão que a cegava pelos meninos. 

Tinham convivência complicada, o tempo todo trocando farpas e disputando o amor da mãe, até a derradeira briga por Livia, uma menina a qual ambos gostavam. Yaqub saiu dessa briga com uma cicatriz atravessando o rosto e uma passagem só de ida para o Líbano lutar na guerra do país de seus pais. 

Anos depois, quando retorna da guerra, Yaqub é homem feito; já Omar parece ter parado no tempo, continua agindo como uma criança, sem responsabilidades e sendo mimado e validado por sua mãe o tempo todo. A disputa entre os irmãos se acentua todos os dias, ao ponto de a convivência se tornar insuportável e destruir toda a família. No meio disso tudo, assistem ao crescimento, glória e ruína da família Domingas, a empregada da casa, e seu filho de pai bastante suspeito, porém desconhecido.

Essa adaptação de Milton Hatoum foi lindamente construída e desenhada, me dando a oportunidade de conhecer, não só a obra clássica de Milton, mas a Manaus de antigamente e um pouco da cultura libanesa. Desde que li Daytripper, uma obra premiadíssima mundo afora que me deixou em posição fetal por dias pensando na fugacidade da vida, eu sonhava em ler outra obra de Fábio Moon e Gabriel Bá. Ainda, sabendo que Fábio e Gabriel são irmãos gêmeos, passei bastante tempo me questionando de onde veio o ímpeto para adaptar justamente essa trama e até onde os artistas se enxergaram nessa dualidade de gêmeos descrita na trama.

Um lindo exemplar.

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Inquebrável - Gisele Pereira

Em Inquebrável, Gisele Pereira nos conta a história de Maddu, uma jovem que se entregou à depressão e ao alcoolismo após a trágica morte de seu companheiro e seu bebê, ainda na barriga. Mesmo com suas amigas e familiares fazendo de tudo para tirá-la do buraco onde se encontra, Maddu não consegue melhorar, pois está entregue ao sofrimento.

É quando conhece Davi, um rapaz lindo, num bar, completamente embriagada. Acorda no seu apartamento minimalista aflita, sem saber o que tinha acontecido na noite anterior. Mas Davi é uma boa pessoa e apenas cuidou de Maddu para que pudesse voltar para casa em segurança.

Algum tempo depois, Maddu, que estava numa entrevista de emprego, esbarra com Davi num shopping e descobre que além de lindo e boa pessoa, ele é extremamente rico e dono do shopping. Então os dois se envolvem profissionalmente e, não muito tempo depois, sexualmente e amorosamente. Mas Davi não é perfeito e também carrega seus traumas consigo. Então Maddu e Davi precisam superar seus traumas e se abrir para um relacionamento que pode ajudar a colar seus pedaços de volta no lugar.

Bom, Inquebrável é a típica história da "menina e do CEO", com todos os clichês que poderia vir junto, como "homem rico, mas com alma quebrada". É uma história bastante intensa, os personagens se conhecem e em pouco tempo já declaram amor, Davi já se compromete a consertar Maddu. O enredo é previsível até 75% do livro, ponto onde vira totalmente a chave e fica até um pouco fora da realidade, beirando a trama de novela da Globo. Achei os diálogos um cado repetitivos também. 

No geral, é uma história interessante para quem gosta de um bom dramalhão com romance e final feliz e quer uma leitura descompromissada. 

Quincas Borba - Machado de Assis

Em Quincas Borba, pasme, não acompanhamos a história de Quincas, mas sim de Rubião, mas também de Quincas. Machado não era nada óbvio e adorava fazer jogos de palavras e brincar com o nosso entendimento. Quincas era um aristrocrata que tinha um cachorro, também chamado de Quincas, e Rubião como cuidador/amigo pessoal. Ao falecer, o Quincas humano deixou à Rubião sua fortuna e seu cachorro, Quincas. Então Rubião deixou Barbacena e foi usufruir da sua nova vida aristocrática no Rio de Janeiro com seu amigo Quincas, canino.

Já no percurso de trem entre as cidades, Rubião conhece o casal de capitalistas Cristiano e Sofia e, como não poderia deixar de ser, Rubião se encanta pela esposa do mais novo amigo. Machado adorava expor essas tensões e relações que sempre aconteceram por baixo dos panos na aristocracia carioca. 

Sofia cozinha lentamente Rubião em banho-maria. Não o corta e, ainda por cima, vive mandando sinais confusos sobre suas intenções. Por anos! Rubião, inclusive, dispensa diversas oportunidades de se envolver amorosamente com outras mulheres não comprometidas por conta desse cenário agridoce. Cristiano, ficando a par da situação, ao invés de afastar o mais novo amigo, o aproxima ainda mais, envolvendo Rubião e a sua grande herança em negócios que se mostram bastante infrutíferos. 

Sem querer estragar o final, posso apenas dizer que esse foi um dos livros mais melancólicos que li e Machado. Apesar de sempre divertido, irônico, sarcástico e provocador, Machado expõe um lado triste e cruel da alta sociedade, fazendo seu personagem principal a maior vítima da ganância e do medo de outrem de se associar com pessoas não bem vistas.

Fechei, com este livro, a leitura dos maiores romances de Machado, ainda mais convicta da genialidade desse autor que, mesmo séculos após sua escrita, ainda se faz tão atual nas suas críticas.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

A Tragédia de Macbeth - William Shakespeare

Se não me engano, A Tragédia de Macbeth foi a segunda peça de teatro que eu li. A primeira havia sido Sonho de Uma Noite de Verão, há muitos e muitos anos atrás. Então para uma coisa serviu: me lembrar que eu não gosto de ler peças de teatro.

A edição em e-book que eu baixei, principalmente, estava um caos. Os tradutores alternavam entre a peça traduzida em português e a original em inglês, às vezes cortando a cena ao meio para fazer essa alternância, o que deixou tudo bastante confuso mesmo. É uma peça bem curtinha mesmo, se não fossem as alternâncias entre os idiomas, creio que daria para ler em um ou dois dias. Mas esses "detalhes" à parte, consegui ler e compreender a história e entendo porque é um clássico. 

Imagine alguém no Século XVII ousar escrever sobre uma história que envolvia bruxas, traições à coroa com direito a regicídio, ainda nos fazendo filosofar sobre profecias autorealizáveis? Shakespeare em poucas páginas nos fez ponderar sobre o que é ambição e ganância, e o quanto a sede por poder pode cegar um homem, fazendo-o passar por cima de todos os seus princípios.

Interessante. Parece que saiu um filme da adaptação há pouco tempo, vou assistir.

sábado, 26 de junho de 2021

O Vazio da Forma - Andrew Oliveira

Frey é um jovem artista deprimido, que após passar por uma diversidade de traumas na infância e adolescência, se vê com a chance de ouro de deixar sua cidade natal Praia de Pérola e estudar artes em uma renomadíssima escola no Porto das Oliveiras. Lá, conhece e se casa com Jacinto, um homem da burguesia de Porto. Juntos, adotam Lírio, que misteriosamente desaparece numa visita ao circo. Frey então começa uma jornada interna e externa para superar seus traumas não superados ou resolvidos, reencontrar sua filha e a si mesmo.

"O Vazio da Forma" é uma obra linda, profunda e emocionante. Andrew não poupou nada, nem a si mesmo, para escrevê-la. É possível captar muito do autor em Frey, principalmente de sua espiritualidade. Os cenários presentes e passados são lindamente descritos. Vez ou outra somos brindados com sutilezas e analogias, que são colocados aqui e ali, de forma despretensiosa, para deleite dos leitores mais atentos. O passado de Frey, sua família que deixou para trás, seus amigos e o acontecido em sua cidade natal (a grande onda) voltam constantemente para acalentá-lo ou atormentá-lo, Frey é tomado pela "sombra" e se vê novamente num buraco que parece fundo demais. O autor também brilhou ao inserir a religião de Frey como um elemento fundamental da narrativa, podendo ser considerada uma personagem da obra.

O personagem Jacinto, pessoalmente, foi o que mais me marcou. Ele não é uma pessoa deprimida, mas vive e ama uma pessoa deprimida. Jacinto aprendeu a lidar com a depressão de Frey, que não consegue captar a pureza e tamanho do sentimento que Jacinto tem por ele. Muitas vezes, Frey questiona o amor de Jacinto, achando que a qualquer momento ele irá deixá-lo por não aguentar mais viver ao lado de um deprimido. Mas Jacinto não vai, pois Jacinto ama Frey. E foi por meio de Jacinto que eu mesma comecei a ver o amor que as outras pessoas têm por mim de maneira diferente. Eu, que já tive depressão (e as vezes ainda tenho umas recaídas), sei o quão difícil é lidar comigo nesse estado e, assim como Frey, duvidava do amor das pessoas que insistiam em ficar ao meu lado. Mas Jacinto me fez ver que elas não estão comigo por pena, mas por amor.

O primeiro romance de Andrew Oliveira é uma obra pungente e delicada, que nos faz pensar e repensar a todo instante nossas próprias crenças e autolimitações. Que nos coloca dentro do corpo de Frey, tanto para as situações de alegria e prazer, quanto para as situações de dor e desespero, mas termina com uma mensagem linda de amor, perdão e reencontro consigo mesmo.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Ninguém Escreve ao Coronel - Gabriel García Marquez

Ambientada na famigerada Macondo de "Cem Anos de Solidão", Gabo, nos faz rir e indignar com a história de um coronel reformado à espera da sua aposentadoria militar há 15 anos (sim, este livro é um spin off datado de 1961). "Eles vão me pagar a minha aposentadoria, eles tem que me pagar. Eu lutei por este lugar, cumpri a minha parte. Essa ordem de pagamento vai chegar mais dia, menos dia pelo correio", o coronel tenta convencer a si mesmo e a sua esposa. Todos os dias sai de casa e caminha até o porto da cidade para esperar o barco com as cartas dos correios. E todos os dias volta de mãos vazias. 

Sua esposa sofre de asma, sua saúde oscila entre suficiente e péssima, e ela constantemente necessita de consultas ao médico e remédios caros. O casal se encontra em luto devido à morte de seu único filho. Mas, será que ele morreu mesmo? Bilhetes sendo passados, mensagens e diálogos incompletos aqui e ali, às vezes nos dão a entender que não. O fato é que a fome passou a assolar o lar do casal. Os vizinhos os percebem aos poucos definhando, emagrecendo,  vendendo o parcos pertences de valor da casa para comprar comida. Lá se foram o relógio e o violão. Quantos mais pertences existem na casa? Com quantos é possível viver de forma digna? 

Apesar de muita insistência da esposa, um bem que o Coronel não aceita de forma alguma vender é o galo de rinha deixado pelo filho. Antes fonte de renda para a família, o galo se torna um dreno de dinheiro e de comida. Durante todo o livro há um intenso preparo e uma angustiante espera para a próxima rinha que aconteceria no mês de Janeiro, onde seu galo era o favorito a campeão. Visando manter o animal forte e preparado fisicamente, o Coronel às vezes desvia comida dos humanos da casa para dar ao bicho. Um dia o sacrifício vai compensar. Mas esperança enche a barriga? 

A asma, a fome, o estresse com a aposentadoria que não chega, a data da rinha que parece estar cada vez mais distante, o luto com a morte do filho. A situação vai ficando insustentável e desesperadora. É um livro bastante curto, sutilmente engraçado e intenso. Ao final, mais uma vez, Gabo não finaliza a história da forma como se espera, não nos dá fechamentos ou sequer esperança. Nos ensina a ler e entender a experiência literária de forma diferente. E você que se vire com as expectativas que criou, caro leitor.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Alameda do Carvalho - Ninna Vicari

"Alameda do Carvalho" é o romance de estreia de Ninna Vicari. Com ambientação em Londres, acompanhamos o desenrolar do relacionamento de Tom e Lily, pai e filha, com Mia, estudante de direito e babá de Lily em tempo parcial. Mia ama seu trabalho como babá, o que logicamente faz a menina Lily ser apaixonada por Mia. Mia também é apaixonada por Lily e por Tom. E Tom é apaixonado por Mia. Tudo parece certo e bem resolvido. 

Até aí o leitor pode achar que é uma história clichê e morna sobre um pai que se apaixona pela babá da filha e vivem felizes para sempre, mas não é bem assim. Para começar a esposa de Tom, mãe de Lily, morreu. No começo do livro, ainda não sabemos quais as circunstâncias da sua morte, que muito aos poucos vão sendo reveladas ao leitor durante a trama. A família da falecida acha tudo que Tom faz errado e sem sentido. Justamente por isso e sabendo as questões éticas envolvidas nas circunstâncias, Tom reluta em assumir o relacionamento com Mia publicamente, gerando ainda mais atrito no relacionamento. Será que essa relação vai conseguir superar todas as adversidades e prosperar? Até onde uma pessoa deve abrir mão do que realmente sente em prol do que as pessoas acham que é o certo a se fazer?

Esses são alguns dos questionamentos que Ninna Vicari nos traz. Diversos momentos me coloquei no lugar de ambos os personagens. O que será que eu faria se me apaixonasse pelo meu chefe? Como eu reagiria às provocações da sua "sogra"? Como não deixar todo esse drama respingar numa criança que ainda nem assimilou a morte da sua mãe? 

A estreia de Ninna Vicari mostra que ela chegou chegando e tem bastante a mostrar. A autora tem uma escrita muito madura e envolvente. O background dos personagens é extremamente bem construído, as linhas do tempo, os desenvolvimentos das narrativas e as personalidades dos personagens são coesos e sólidos. É nítido o cuidado e o tempo que a autora dispensou nessa obra. A sua capacidade descritiva é na medida certa, dando o suficiente para que montemos na nossa cabeça os personagens e os cenários maravilhosos, mas sem se perder nas descrições. A diagramação, capa, revisão estão impecáveis, o que é bastante impressionante para um trabalho independente. 

Foi uma jornada infelizmente curta, pois eu devorei o livro, e que deixou saudades quando terminou (deixou algumas lágrimas também). Valeu cada minuto. Não vejo a hora de ler mais um trabalho da Ninna!

sábado, 15 de agosto de 2020

Aqueles que Abandonam Omelas - Ursula Le Guin

Aqueles que Abandonam Omelas - Ursula Le Guin
Hoje volto com outro conto.

Bem curto, mas que diz muito e de maneira incrível nos fala com muita verdade sobre como nossa sociedade está construída e como escolhemos e nos convencemos que algumas situações são imutáveis e são a melhor solução.

Aqueles que abandonam Omelas são esse tipo de pessoa. E durante a leitura ficamos maravilhados com a cidade ficcional de Omelas, um local perfeito, cheio onde todos são extremamente felizes, tudo acontece perfeitamente e nada está errado.

Mas com o avanço da história começamos a ter uma sensação de que algo está errado e se realmente ali é um lugar maravilhoso como é descrito e a que preço.

Além de todo o malabarismo argumentativo para manter a maravilha que é viver em Omelas.

terça-feira, 30 de julho de 2019

O Sol é para Todos - Harper Lee

Em O Sol é para Todos, um clássico escrito por Harper Lee na década de 60, uma menina de 7 anos descreve as aventuras de verão e demais histórias que se passam em torno da sua família, os Finch. 

Morando em Maycomb, uma cidade fictícia no Alabama, sul dos EUA, seu pai, o advogado Atticus, é encarregado pela justiça a defender Tom Robinsom, um negro acusado de estuprar uma branca da classe trabalhadora. Sua narrativa vai aos poucos passando das ingênuas e gostosas travessuras e histórias que inventava com seu irmão Jem e seu amigo Dill a respeito de um misterioso vizinho que nunca saía de casa, a tentar compreender a hostilidade consigo e seus familiares que de repente surgira por parte dos tradicionais cidadãos da cidade. 

domingo, 2 de julho de 2017

O Grande Mentecapto - Fernando Sabino

José Geraldo Peres da Nóbrega e Silva era um menino como qualquer outro criado em Rio Acima, interior do estado de Minas Gerais. Fugia para tomar banho de rio com os amigos e aprontar todo tipo de travessura pela cidade. Parte de uma família extensa, com incontáveis irmãos, o seu mais promissor prognóstico era o de tocar o  pequeno comércio da família no futuro. 

Contudo, Geraldo era audacioso, e numa tediosa tarde resolveu assombrar todos os seus amigos com uma aposta: faria o trem parar na estação abandonada da cidade, onde havia anos que ele não parava.

Venceu a aposta, porém seu ato não passou sem maiores consequências. E certo de que a desastrosa consequência havia sido sua culpa, resolveu abandonar seu destino antes determinado e entrar para o seminário. Quando sua vida parecia ter finalmente entrado nos eixos, uma enorme confusão em Mariana, cidade onde ficava  o seminário, o fez largar a futura batina e seguir sem rumo pelo estado de Minas Gerais.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Morte Súbita - J. K. Rowling

Parecia uma noite comum na cidade de Pagford, quando Barry Fairbrother, conselheiro municipal, subitamente morre no jantar de comemoração do aniversário de casamento na companhia de sua esposa Marry.

Aneurisma.

Numa cidade tão pequena quanto Pagford, as notícias correm de forma muito rápida e logo burburinhos acerca das circunstâncias de sua morte já estão na boca de todos os habitantes. Ainda, mais pessoas começam a reclamar a participação neste evento tão inusitado da cidade.

Mais de 100 páginas se desenrolam entre a morte de Barry e o seu funeral e neste meio tempo, uma trama complexa de personagens nos é apresentada. São mais de 15 elementos com personalidades muito bem definidas.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Daytripper - Fábio Moon & Gabriel Bá

Brás de Oliva Domingos é um jornalista e aspirante a escritor que vive à sombra de seu pai, Benedito,
um escritor de enorme sucesso. Nas primeira páginas, logo descobrimos que Brás tem 32 anos e amarga sua vida escrevendo na seção de obituários de um jornal. Nada do que ele esperava de si mesmo profissionalmente.

Passeamos pela vida e cenários do protagonista, sentindo um pouco sua dor e sua felicidade, quando na página 34, subitamente, Brás morre. Ele, que descreve a vida e morte das pessoas como profissão, ironicamente termina o capítulo com sua morte descrita num obituário.

Fechei o livro e me peguei pensando em como ele continuaria, já que o personagem principal morreu de forma tão prematura. Corajosamente o abri mais uma vez e percebi que no capítulo seguinte, Brás reaparece no auge da sua juventude, com 21 anos. A vida dele é contada de trás pra frente, penso eu. Mais algumas páginas e Brás morre novamente.

sábado, 27 de julho de 2013

Travessuras da menina má - Mario Vargas Llosa

Da última vez que fiquei sem opções de leitura, joguei a pergunta no Facebook para ajuda dos amigos: preciso de um livro maravilhoso, qual o último livro maravilhoso que você leu. Achei que fosse encontrar um monte de opiniões variadas e nenhum consenso, mas, para a minha sorte dois livros tiveram mais de um voto, indo direto para a lista "tenho que comprar". Um deles foi "Reparação", de Ian McEwan, que ainda está na prateleira aguardando a vez, o outro foi "Travessuras da menina má", de Mario Vargas Llosa.

domingo, 29 de janeiro de 2012

A Resposta - Kathryn Stockett

capa a respostaSinto-me honrada e ao mesmo tempo preocupada com o convite para participar de Histórias para ler. Honrada porque tenho idade para ser mãe de toda essa moçada que faz parte do blog e me sinto lisonjeada por compartilhar ideias com jovens inteligentes e interessados num bom livro. Preocupada porque gosto é pessoal, mas enfim, esse é o propósito. Dar a opinião de leitores para leitores sem pretensões de crítica literária. Depois da dúvida resolvi encarar o desafio e aqui estou eu com a minha primeira recomendação.

Começo com o livro The Help, de Kathryn Stockett, que foi traduzido para o português por A Resposta e que recebeu o título de Histórias Cruzadas no cinema (ainda não tive oportunidade de assistir).

1962, mas poderia ser hoje. O livro me fez pensar muito, principalmente porque somos brasileiros e alardeamos ao mundo que não somos preconceituosos. Será mesmo?

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Os Sofrimentos do Jovem Werther - J. W. Goethe

Em mais um clássico da Coleção Abril, Goethe retrata parte da vida de Werther. Sua história é contada em terceira pessoa por Wilhelm, através de cartas enviadas a ele por Werther e, em alguns trechos, narrada, para completar informações faltantes as cartas. 

A história começa quando Werther se muda para o campo para trabalhar, mudar de ares. De início, Werther relata em suas cartas como ama a vida calma, o contato com a natureza, a simplicidade das pessoas com quem convive. Até que em uma festa Werther conhece Charlotte. 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A solidão dos números primos - Paolo Giordano

"A solidão dos números primos" ("La solitudine dei numeri primi") não é um livro comum. Mas eu tenho a impressão de que boa parte da literatura italiana é assim. Muito mais filosófico e psicológico do que um romance, o livro conta a história da ligação entre duas pessoas ao longo da vida: Mattia e Alice. A história virou filme em 2010, e foi o trailer que me chamou a atenção, parecendo algo como "Rosso come il cielo", outro filme lindo do mesmo estilo.